Omissão do artigo e crase

interrogação

Professor,

sou aluno no curso noturno do Damásio. Gostaria de esclarecer uma dúvida.   Na construção abaixo, a crase não seria obrigatória?

“cometerá crime de desobediência a ordem judicial, podendo sofrer intervenção federal por desrespeito a ordem judicial.”

O substantivo “desobediência” não exige preposição? Se eu fizer a troca por “desobediência ao mandado judicial “, não ficará visível a exigência da crase?

Obrigado,

Hudson

 

 

Hudson,

antes de mais nada, a frase está correta sem crase.

Para você entender o que ali ocorreu, peço que analise um outro  artigo de lei, mas com palavras masculinas, o que tornará a compreensão mais objetiva:

“Art. 99. O internado será recolhido a estabelecimento dotado de características hospitalares e será submetido a tratamento.” (CP)

Na frase acima, o “a” é apenas a preposição “a”. Pergunte-se: por que não se usou “recolhido ao estabelecimento” e “submetido ao tratamento”. Logo se perceberá que os substantivos masculinos não foram usados com o artigo definido “o” porque isso produz uma generalização: “estabelecimento qualquer; tratamento qualquer”.

Quando a lei diz “O internado…será submetido a tratamento“, ainda não se tem o fato ocorrido, trata-se de uma projeção, de uma previsão do que poder vir a acontecer e, por isso, não se sabe ainda qual é o tratamento a ser aplicado ao fato real. É, pois, algo ainda não conhecido, não existente, daí a razão de não se usar o artigo definido.

Leve esse raciocínio para a sua frase e perceberá que o autor tratou de forma indefinida: “desobediência a ordem judicial” = “desobediência a mandado judicial”.

Aqui cabe a seguinte explicação:

– usamos o artigo definido para as coisas que já conhecemos, coisas que pertencem ao conhecimento prévio de quem fala e de quem escuta: “Vá lá e leia os livros”.

– a ausência do artigo definido produz uma generalização: “Vá lá e leia livros”.

Percebe-se que as frases “leia os livros” (= os livros são conhecidos) e “leia livros” (= são livros quaisquer, indeterminados, generalizados) informam coisas distintas. Jamais podemos dizer que isso seja facultativo nem que o sentido seja o mesmo.

São sutilezas que, principalmente no direito e no jornalismo, ocorrem com frequência. No direito a lei precisa existir antes do fato e, por isso, trabalha com previsões, com ações hipotéticas, ou seja, são fatos que ainda não ocorreram, não são conhecidos. É, então, que encontramos frases como “sujeito a pena, sujeito a tributo”, sem artigo, pois ainda o fato não ocorreu, portanto impossível de ser do conhecimento prévio dos interlocutores.

Já no jornalismo, a manchete traz muitas vezes o substantivo sem o artigo definido a fim de produzir o sentido de coisa não conhecida, pois a manchete apresenta um fato ainda novo, desconhecido ao leitor, mas, no corpo da reportagem, aí se passa a ter o uso do artigo, pois temos o fato explicado pelo jornalista, posto ao conhecimento do leitor.

Conclua que para tais delicadezas no uso do artigo é imprescindível o contexto e as intenções do enunciador.

Em questões de concurso público, porém, não se pode trabalhar com tantas nuances, com tantas subjetividades interpretativas, já que a maioria das questões não traz o contexto da produção. Se em cada lacuna pudéssemos aplicar o que foi apresentado acima, haveria um colapso, uma instabilidade de altíssimo risco para todos (banca e candidato). Na prova, o uso do artigo determinando os substantivos é o recorrente e as provas têm certa rotina quanto a esse ponto.

Mas já vimos e veremos questões muito esporádicas tratando do tema atual. Os limites das bancas são sempre invisíveis aos nossos olhos.

Abraços,

João Bolognesi

  1. #1 por Patrícia Almeida em 27 de outubro de 2018 - 00:49

    Melhor professor do mundo de português!!! Já fiz seu curso e somente com suas aulas consegui entender português e até mesmo gostar mais da matéria. O blog também é excelente. Muito obrigada, continue assim!

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  2. #2 por bruna em 6 de novembro de 2018 - 14:06

    João Bolognesi, tenho um livro seu de português de 1995, ele é tão completo e tão bom, que mesmo diante de vários livros de gramática e outros que também ensinam a matéria, sempre recorro a ele. E depois de muitos anos, tive a oportunidade de ter uma aula contigo. É impressionante como tu ensinas a matéria e faz parecer tudo tão mais “fácil”.

    Curtido por 1 pessoa

    • #3 por Joao Bolognesi em 7 de novembro de 2018 - 19:14

      Bruna,
      grato pelos elogios. Como aprendi quase tudo que ensino praticando, tento manter essa visão no meu trabalho. Sempre que precisar, faça contato.
      Abraços!

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  3. #4 por Paula em 20 de novembro de 2018 - 16:49

    Olá professor João.. tudo bem..?? Sou aluna Damásio Londrina..
    Gostaria de saber se resolveu a prova da PC/PR.. e se existe alguma questão errada..
    Fico no aguardo..!! Abração..!!

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    • #5 por Joao Bolognesi em 21 de novembro de 2018 - 19:15

      Paula, este concurso teve o acompanhamento do Professor Eloy. Não cheguei a ver a prova, mas entre em contato se houver algum problema.
      Abraços.

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  4. #6 por André da Rocha Silva em 21 de dezembro de 2018 - 11:06

    Olá, professor, bom dia!
    Assistindo sua aula ontem do RF PRF, fiquei com uma dúvida referente ao uso facultativo da crase nos pronomes possessivos femininos. Como bem explicado, quando no singular, é facultativo, porém no plural, conforme o exemplo abaixo também seria?
    Refiro-me somente às suas aulas.
    Refiro-me somente as suas aulas.
    Abs!
    Att.
    André.

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    • #7 por Joao Bolognesi em 21 de dezembro de 2018 - 17:49

      André,

      no plural dos pronomes possessivos femininos, o acento não é facultativo.
      Siga o seguinte raciocínio:
      – a preposição A é invariável, portanto não há plural;
      – o artigo varia, portanto o “s” marca a forma plural.

      Na frase “Refiro-me às suas aulas”, temos acento obrigatório, pois “referir-se” exige preposição A e “aulas” vem com o artigo plural AS.

      Na frase “Refiro-me a suas aulas”, temos acento proibido, pois ocorre apenas o uso da preposição A (exigida pelo verbo “referir-se”); “aulas” vem sem o artigo plural AS, o que é fácil de notar graças à ausência do “-S”.

      Dessa forma, nos pronomes possessivos plurais não há acento facultativo.
      Se você quiser ler mais detalhes e resolver questões relacionadas ao tema, não deixe de ler:
      https://joaobolognesi.com/2016/03/04/crase-e-acento-facultativo/

      Você logo notará que o CESPE faz uso desse questionamento com recorrência.

      Bons estudos e boa sorte!

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  5. #8 por Alexandre Rufino Teixeira em 22 de janeiro de 2019 - 17:48

    Caro professor, saberia me dizer onde encontro, digo, algum site com as provas anteriores da FGV ? Grato!

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  6. #10 por Gabriel Nogueira em 28 de janeiro de 2019 - 12:17

    Professor, assistindo uma de suas aulas sobre partitivos de concordância me deparei com a seguinte dúvida, a frase: “1% das pessoas compareceram à sessão” estaria correta ou ela necessariamente seria no singular “1% das pessoas compareceu à sessão” ??

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  7. #12 por Edielson Alves de Oliveira em 12 de novembro de 2020 - 21:21

    Professor João, pelo amor de deus, olha o titulo dessa reportagem e me diga se tem algo errado, https://www.youtube.com/watch?v=4JcbjC-9qjI

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    • #13 por Joao Bolognesi em 13 de novembro de 2020 - 14:12

      Tudo bem, Edielson!!
      Os caras já chegaram atirando no A!!! kkkk
      “a tiros” => Duas áreas proibidas de crase!
      Valeu!

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  8. #14 por oswaldo mascarós filho em 10 de março de 2021 - 00:57

    Oi João, tudo bem com você?
    Gostaria de esclarecer mais uma dúvida. Ela surgiu na construção da questão (simulado) abaixo?

    12. A crase presente no último período do texto “são necessariamente restritas à órbita do indivíduo em seu mundo”, se justifica por ser uma exigência do termo “restritas” a presença da preposição antes do artigo feminino singular que acompanha “órbita”.
    Gabarito: Certo
    Comentário: Caso simples de crase do encontro da preposição e do artigo feminino singular.

    Minha dúvida está no ponto em que a questão se refere a presença da preposição no termo “restritas”… Este gabarito está correto? Minha atenção se voltou para este termo e não para o encontro da preposição com o artigo feminino do termo órbita. Fiquei confuso.

    Obrigado

    Oswaldo

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    • #15 por Joao Bolognesi em 11 de março de 2021 - 00:13

      Tudo bem, Oswaldo?!

      A forma “restritas” é um adjetivo que rege preposição “a”. Observe os exemplos:

      . São casos restritos aos brasilerios.

      . O uso do benefício é possível, mas restrito aos estrangeiros.

      . A entrada no estabelecimento é restrita aos funcionários.

      Perceba que em todos os exemplos há “aos”, ou seja, preposição a + artigo os.
      Caso se mude para palavra feminina, teremos crase.
      Reveja a dúvida e, qualquer problema, reenvie.
      Bons estudos e boa sorte!

      Curtir

      • #16 por oswaldo mascarós filho em 11 de março de 2021 - 04:55

        Realmente eu fiz confusão, achei que pudesse ser uma pegadinha. Pois a palavra órbita não estava entre aspas. Agora eu entendi!
        Obrigado novamente João.
        Um abraço!

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  9. #17 por carloscesarfreire em 28 de março de 2021 - 16:07

    João, estou assistindo sua aula sobre crase no portal do Damásio. Onde você explica sobre uso
    de crase em locuções, como por exemplo, à revelia de, à espreita de, … etc. Não consigo ver essas palavras como substantivos, só consigo ver advérbios nessas locuções, não teria alguma condição de uso de crase em advérbios?

    Curtido por 1 pessoa

    • #18 por Joao Bolognesi em 28 de março de 2021 - 23:40

      Carlos, pense que precisamos “fatiar” para poder entender. Primeiro, “à revelia de” é uma locução prepositiva formada por um substantivo feminino. O que essa expressão vai compor é geralmente um adjunto adverbial de modo: O juiz pronunciou a sentença à revelia do réu.

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    • #19 por Joao Bolognesi em 28 de março de 2021 - 23:40

      Perceba que seu olhar já está lá no fim da análise, o que também está certo. Mas aqui no começo vemos o substantivo “revelia” formando a locução “à revelia de”.

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    • #20 por Joao Bolognesi em 28 de março de 2021 - 23:40

      Bons estudos e boa sorte!!

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  10. #21 por oswaldo mascarós filho em 18 de abril de 2021 - 03:38

    Oi João, tudo bem com você? Espero que sim!

    Na seguinte frase:

    “Implantação de filial e administração financeira, estratégica e operacional. Relacionamento com matriz e principais fabricantes de aparelhos celulares à época.”

    Esse A tem crase correto? O verbo que rege é Relacionar? Minha confusão pode estar no sentido deste verbo (por ex.: relacionar documentos // relacionar os documentos).

    As vezes da um branco em algumas leituras.

    Obrigado

    Oswaldo

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    • #22 por Joao Bolognesi em 22 de abril de 2021 - 12:46

      Tudo bem, Oswaldo?

      O acento grave está correto. Não se trata de regência, mas sim de locução feminina. Temos uma expressão que é “à época de…” ou simplesmente “à época”. Tem valor de advérbio de tempo e a usamos para indicar algo contemporâneo ao que estamos falando.
      Dois exemplos:
      Tudo isso ocorreu em 2010 e à época eles ainda eram solteiros.
      Ele estava viajando a trabalho à época do incidente.

      Bons estudos e boa sorte!

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